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É possível que eu esteja enganada, mas às vezes tenho a impressão de que antigamente as crianças eram crianças por mais tempo, ou pelo menos sabiam aproveitar melhor a infância. A minha, por exemplo, já estava com o prazo de validade vencido, quando minhas Barbies deram as costas para mim, recusando-se a continuar a brincadeira.
Guardo com uma certa nostalgia esses tempos em que os percalços do mundo adulto mantinham-se a uma distância segura dos meus devaneios pueris, e que todos os sonhos – absolutamente todos – pareciam perfeitamente realizáveis.
Na década de 80, período em que se ambientou meu alegre tempo de criança, os baixinhos ainda não viviam vidrados nos jogos de computador, nem estavam condenados à clausura dos asfixiantes playgrounds.

Fazendo um retrospecto, reuni alguns flashes desta fase tão divertida quanto passageira, e que fazem parte dos capítulos iniciais da minha história pessoal:
* ainda nem andava quando ganhei da minha madrinha o meu primeiro boneco, o Feijãozinho. De vez em quando, ainda esbarro com ele em algum canto do armário;
* tive um carrinho vermelho, daqueles de sentar dentro e sair pedalando. Uma vez, tentei fazer-lhe uma “lanternagem”, usando o vidro de esmalte de unhas de uma visita;
* pedi um boneco Fofão no Natal, mas quando ia para a cama, virava o dito cujo para a parede – eu o achava feio e sinistro;
* houve uma época em que andava fissurada na Xuxa e em tudo o que fosse da Xuxa. Inclusive aquelas sandalinhas horrorosas e as inesquecíveis botas de amarrar;
* tive ainda umas mil Melissinhas, que traziam como “apêndice” os mais variados acessórios, que iam desde bolsinhas e pochetes até reloginhos em forma de coração – tudo de plástico, e geralmente rosa;
* também me rendi à febre do bambolê, e um dia fiquei 40 minutos rebolando naquele negócio – na certa pretendia entrar pro Guiness;
* passava voando de bicicleta pelas ruas do bairro, levantando poeira, com pressa para ir jogar bola na casa dos amigos da vizinhança;
* adorava tomar banho de chuva, e levei broncas memoráveis ao chegar em casa com o cabelo pingando, depois de saltitar no temporal;
* tinha medo de vampiro, mas mesmo assim insistia em ver filmes de terror. Depois, na hora de dormir, não pregava o olho nem por um decreto;
* fiz questão de acreditar em Papai Noel pelo maior tempo possível – até quando já não dava nem para fingir que eu acreditava;
* depois de engolir água em várias piscinas, aprendi a nadar sozinha, na praia;
* tinha uma coleção de bonecas Barbie, mas a minha preferida era uma Barbie americana, presente de Tia Etelvina;
* colecionava papéis de carta, e tinha um enorme orgulho da minha imensa coleção, que eu levava para a escola para trocar com outras menininhas;
* já fiz bolinho de terra com forminha de gelo;
* colecionei joaninhas num “jardim artificial” montado dentro de uma caixa de papelão.
* desenhava e escrevia exaustivamente, e meu pai perdeu a conta de quantas resmas de papel e de quantos mil lápis de cor comprou para alimentar minha “expressão artística”. Eu escrevia e ilustrava histórias, além de fazer revistas em quadrinhos.
Enfim, foram muitos os momentos alegres, os brinquedos e as histórias. Com as memórias que guardo deste período, eu seria capaz de escrever mais umas quinhentas linhas, descrevendo as incontáveis façanhas daqueles dias róseos, em que os adultos me advertiam, em tom de brincadeira:
- Aproveite enquanto é criança. Depois você cresce, e aí vai ver o que é bom pra tosse.
Antes fosse xarope.