Quem já leu o clássico Pollyanna - na minha opinião, o pioneiro da literatura de auto-ajuda - sabe a quê se refere o título deste post. Para quem não leu, eu explico: Pollyanna era uma menina órfã, com uma vida desgraçada de dar dó, mas que vivia uma vida maravilhosa jogando o "jogo do contente". O dito jogo consistia em sempre procurar o lado bom das coisas, por mais tenebrosas que fossem. E, pelo menos na ficção do livro, ela conseguia. .
Esse prolegômeno todo foi para lançar minhas impressões a respeito desse grande "sucesso editorial" que se tornou The Secret - O Segredo, da australiana Rhonda Byrne. No fundo, suas teorias são, digamos assim, uma sofisticação do jogo do contente praticado pela menininha de Eleanor H. Porter. .
Recebi um e-mail da Saraiva, anunciando o lançamento de The Secret - O Segredo. Como não sabia exatamente do que se tratava, imaginei logo um catatau cheio de soluções "mágicas" para todos os problemas humanos - desde os existenciais, do tipo "qual o objetivo da vida?" até as unhas encravadas e bicos de papagaio. Mas eis tenho em minhas mãos o famigerado livrinho: uma coisinha de nada, menos de 200 páginas. Dupla capa, papel brilhante, beleza de encadernação. Não fosse eu essa pessoa que lê até bula de xarope, talvez desse uma bisoiada e só. Mesmo por que, na maior parte das vezes rejeito sumariamente compilações sensacionalistas de auto-ajuda. Enfim, aquele era um livro e eu sou uma pessoa curiosa, que procura conhecer as coisas para poder opinar sobre elas. .
E sabem o que Rhonda Byrne e o charlatão Paulo Coelho têm em comum (além, é claro, da própria charlatanice)? A capacidade de explorar os pontos fracos do ser humano, oferecendo soluções místicas, baseadas em conhecimentos invisíveis e partindo do princípio de que as pessoas PRECISAM acreditar em algo. Ah: e também o fato de os dois venderem a idéia de que, quando alguém deseja algo com muita força, "o Universo conspira a seu favor" para que se realize.
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O livro todo se resume a uma tal "lei da atração" - já explorada antes por outras publicações, embora não com tamanha repercussão - , segundo a qual nossos pensamentos - positivos ou negativos - voltam para nós sob a forma de acontecimentos bons ou ruins, dependendo da freqüência que emitimos para o Universo. E isso é martelado página a página, tornando o livreco um clichê repetitivo. Ela cita "mestres" desconhecidos e insere frases de grandes figuras da história mundial, como Einstein e Graham Bell, além de uns depoimentos igualmente cansativos de um monte de milionários "super felizes" que descobriram o tal segredo. (O testemunho de um sujeito que visualizou uma pena é o cúmulo do absurdo!)
. "Pense positivo", "Dê o primeiro passo", "Mantenha a fé". Oh, God, até eu poderia escrever um livro chato com essas frases!
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A coisa toda tomou uma tal proporção, que já há comunidades no ORKUT com mais de 22 mil membros e grupos que se encontram para discutir os "mandamentos" do livro, segundo li na matéria da revista VEJA (4 de abril de 2007). Há pessoas correndo em desabalada carreira para assistir ao documentário homônimo, na certa buscando encontrar nos cinemas e nas livrarias soluções milagrosas para os mais variados problemas. Descobrir "O Segredo" é a sensação do momento.
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Se pensam que com essa crítica estou desestimulando a leitura desse "segredo" ou a ida aos cinemas para assistir ao documentário, saibam que NÃO. Embora tenha ficado claro para mim que tudo não passa de uma grande manobra de marketing (e que isso renderá alguns milhões de dólares para quem concebeu a idéia), e que os preceitos do livro são, em sua maioria, de uma inexequibilidade evidente, nunca é demais confiar no próprio taco.
.Sem dúvida, evitar idéias pessimistas e depressivas é a melhor forma de sentir-se bem consigo mesmo. Isso é o óbvio, embora nem sempre seja possível. Byrne prega uma idéia exagerada, que diz funcionar sem que se faça nada além de usar "o poder da mente". Penso que manter-se numa constante empolgação, fazendo pouco dos problemas e enganando a si próprio com ilusões de inesgotável felicidade, montanhas de dinheiro e conquistas amorosas é fabricar uma realidade paralela próxima à esquizofrenia. Porém, pensar para frente, focar nos objetivos e desejar o melhor da vida é normal, saudável e necessário.
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Portanto, se quiserem ler, ver e experimentar, mal não vai fazer. O máximo que pode acontecer é... nada.
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PS: Andei me concentrando e imaginei o Flamengo vencendo de 4X2 contra o Botafogo. Visualizei os rubro-negros levantando a taça. Foi batata. Hummm... será? (rs)
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